27 de fevereiro de 2017

Sobre o conceito de sexualidade


Pensar a sexualidade a partir de um referencial teórico psicanalítico é pensá-la a partir de um registro biológico, sociocultural e psíquico.

Como entender a sexualidade, segundo a Psicanálise?

Consideremos o ser humano como um animal mamífero, capaz de se alimentar e de defecar, capaz de "trocar" produtos sexuais (óvulos e espermatozoides) entre si, visando a preservação da espécie -- dentre outras características. Ele é, também, um ser social e cultural, o que o faz existir em relação a outros indivíduos, imersos num mundo de valores éticos, estéticos e políticos. Ele é, considerando essa esfera biológica e sociocultural, um animal humano.

Considerá-lo apenas a partir desses dois registros é, contudo, reduzi-lo a um campo de investigação estritamente objetivo, que desconsidera aquilo que ele talvez tenha de mais próximo, a saber, a sua subjetividade, também nomeada de registro psíquico. O ser humano é também um sujeito que se relaciona, que se identifica, que se emociona, enfim, que se posiciona frente ao biológico e ao sociocultural. Dizemos que ele é, nesse sentido, um ser psíquico. Melhor será chamá-lo de ser humano, considerando-o, evidentemente, como um animal humano e psíquico.

Pensar psicanaliticamente a sexualidade é partir de uma lógica que a concebe como originária do registro biológico, ou seja, de uma fonte estritamente animal. A sexualidade é, nesse contexto, um modo de ser desse animal que o humano é; é um modo de ser que se confunde com uma busca pela satisfação e pelo prazer. Freud afirma que toda pulsão sexual tem um órgão como fonte, uma força quantitativa de pressão como característica, uma necessidade de se ligar a um objeto como meio e um objetivo de se satisfazer como fim. Essa satisfação é o que nomeamos prazer. Sexualidade é prazer, seja lá por qual meio (objeto) ela se realize.

Afirmar que o ser humano é sexualidade é o mesmo que afirmar que ele busca se afastar do desprazer para alcançar a satisfação e o prazer. Sendo assim, quando ele se alimenta e sente prazer nessa alimentação, quando ele lê um livro e sente prazer nessa leitura, quando ele desenvolve um diálogo e sente prazer nesse diálogo, ou mesmo quando ele se relaciona sexualmente com outro indivíduo e se satisfaz nessa relação, dizemos que ele está sendo essa sexualidade, e que essa sexualidade o atravessa integralmente, desde o biológico até o psíquico.

Como se percebe, a sexualidade não diz respeito apenas ao sexo em si, tal como alguns compreendem quando a reduz, por exemplo, ao uso dos órgãos genitais. Sexualidade é um modo de ser, um sentido que perpassa tudo o que o ser humano produz em sua existência.

A questão que torna o assunto complexo é a questão de que esse registro biológico não existe separado do registro sociocultural e do registro psíquico. Nesse sentido, a sexualidade se manifesta também em relação ao mundo simbólico, que é o mundo da sociedade, da cultura e da subjetividade. Tais mundos são os objetos (meios) pelos quais a satisfação é alcançada, seja da forma que for, inclusive através de diversos sintomas que se manifestam em alterações fisiológicas. 

É nesse contexto que surgem duas questões polêmicas, como, por exemplo, as questões que interrogam se: (1ª) "há determinação entre o registro biológico e os outros registros?"; ou se: (2ª) "há apenas condicionamento entre eles?".

Ana Paula Previdelli Rocha
Assumir a primeira resposta é o mesmo que afirmar a posição de que há determinação da sexualidade em relação a um objeto específico, tal como, por exemplo, a afirmação de que um indivíduo que nascera como macho, devido ao seu aparelho reprodutor, estaria naturalmente determinado a buscar um indivíduo que nascera como fêmea, para que o prazer pudesse ocorrer. Assumir a segunda resposta é o mesmo que libertar a pulsão dessa determinação com um tal objeto específico, afirmando que a sexualidade pode se realizar de um modo não programado anteriormente, mas sim condicionado por diversos fatores que se ligam durante o desenvolvimento empírico do indivíduo.

É nessa segunda resposta que compreendo o estabelecimento da teoria psicanalítica, no que diz respeito ao conceito de sexualidade. Assim sendo, a sexualidade é, em si mesma e a priori, livre de um objeto específico; ela é uma condição de possibilidade dos sentidos experimentados pelo ser humano; é uma condição sempre vivenciada e construída em concomitância aos registros simbólicos, e estes são, por sua vez, sempre relativos entre si.

A sexualidade é livre em seu registro originário e biológico, sendo apenas na vicissitude do seu desenvolvimento que ela se liga ao mundo da cultura, da sociedade e da subjetividade do indivíduo.

11 de dezembro de 2016

Sobre Neurose e Psicose

Freud escreveu um texto, no final de 1923, intitulado Neurose e Psicose. Não se trata de um texto cuja abordagem se mostre pormenorizada a respeito do assunto. A intenção de Freud foi mais atualizar a linguagem frente à sua teoria estrutural, apresentada em O Ego e o Id (1923), do que propriamente descrever em detalhes o que é, como funciona e quais os tipos de neurose e psicose que ocorrem. Sendo assim, nem todas as formas de neurose e psicose são abordadas, mas certa diferença genética entre ambas. Freud afirma que "a neurose é o resultado de um conflito entre o ego e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo externo" (FREUD, 1996, p. 167).

Freud faz referência às análises que demonstraram que as neuroses transferenciais são originadas de uma recusa do Ego em aceitar um forte impulso instintual do Id, recusando-o ou impedindo-o de se escoar. O Ego se utiliza, nesse caso, do mecanismo de defesa da repressão. O reprimido cria representações substitutivas que forçam uma conciliação com o Ego. Tais representações são percebidas como sintomas. O Ego continua o processo de combate desses derivados do reprimido, gerando um quadro psíquico chamado de neurose de transferência; ele entra em conflito com o Id, a serviço do Superego e da realidade.

Algo semelhante ocorre com o mecanismo das psicoses, a saber, um distúrbio no relacionamento entre o Ego e o mundo externo. Segundo Freud, a amência de Meynert é um caso extremo e notável de psicose, onde o mundo exterior não é percebido de modo algum. Mesmo a cópia do mundo exterior, armazenada nas lembranças do sujeito e chamada de mundo interno, perde a sua significação (catexia). É nesse momento que o Ego procura criar um novo mundo interno e externo através do delírio e da alucinação; tal criação atende a dois fatos: está de acordo com as exigências dos impulsos desejosos do Id; e o motivo da dissociação do ego com o mundo externo está ancorado numa frustração intolerável, muito séria, de um desejo. A esquizofrenia é outra forma de psicose, onde a gênese dos delírios se encontra numa espécie de remendo no lugar de onde uma fenda na relação do Ego com o mundo externo apareceu.

Freud defende que a "etiologia comum ao início de uma psiconeurose e de uma psicose sempre permanece a mesma. Ela consiste em uma frustração, em uma não-realização, de um daqueles desejos de infância que nunca são vencidos e que estão tão profundamente enraizados em nossa organização filogeneticamente determinada" (FREUD, 1996, p. 169). Como conclusão, o autor afirma que as neuroses e as psicoses se originam nos conflitos do Ego com as suas diversas instâncias governantes, refletindo um fracasso na tentativa de reconciliação das várias exigências feitas a ele.

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FREUD, Sigmund. Neurose e Psicose. In: ESB. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

23 de novembro de 2016

A diferença entre Psicanálise, Psicologia e Psiquiatria

É comum encontrarmos alguns textos informativos em que a Psicanálise é apresentada na comparação com a Psicologia e com a Psiquiatria. Tais textos afirmam, resumidamente, que a Psiquiatria remove os sintomas do paciente através do uso de medicações psicotrópicas; afirmam, também, que tais medicamentos não curam definitivamente a causa das doenças, quando estas são de origem emocional. Uma pessoa que sofre, por exemplo, de fortes dores no peito, quando provocadas por uma alta dose de ansiedade e tensão, pode fazer uso de um medicamento chamado ansiolítico (receitado pelo médico), que funciona para tranquilizá-lo e para que desapareça suas dores.

A Psicologia é apresentada como uma psicoterapia capaz de proporcionar o desaparecimento desses mesmos sintomas. Utilizando-se de expressão oral, visual, gestual, musical, ou tantas outras técnicas em geral, o psicólogo compreende e faz o paciente compreender as causas comportamentais que geram as emoções sentidas como “dores no peito”. Com a modificação do comportamento e com o reposicionamento das atitudes frente à realidade, evidencia-se o desaparecimento dos sintomas, sem que se precise, portanto, da utilização das drogas psicoativas.

A Psicanálise é apresentada, por sua vez, como uma forma de curar definitivamente os sintomas, na medida em que compreende que as causas desses males estão enraizadas na personalidade do indivíduo. Essa personalidade fora construída, principalmente, na primeira infância.

Quero chamar a atenção para dois aspectos contidos nessas breves descrições: 1º) esses textos vulgarizam as três ciências e desconsideram toda a riqueza conceitual e prática que os profissionais dessas áreas enfrentam em sua formação e no dia a dia de sua prática clínica; 2º) essa vulgarização é, entretanto, extremamente importante para que o público leigo tenha uma primeira perspectiva sobre as diferenças entre elas, e para que ele tenha uma primeira noção das características de cada uma.

Sendo assim, coloco-me na perspectiva de apresentar o que é a Psicanálise e para que ela serve, procurando simplificar a explicação e sem deformar a ciência em suas características essenciais.
   
A Metáfora do Copo

Fig. 1. - Ansiedade Natural
Imagine que cada indivíduo seja um copo; que cada um nasceu com uma dosagem de tensão e ansiedade preenchendo parte de si (fig. 1.). Cada indivíduo possui uma dose diferente, sendo que uns estão naturalmente mais cheios do que outros. Chamarei essa dosagem de ansiedade natural, já que ela está presente naturalmente como uma forma de combustível para que a vida aconteça.

Fig. 2. - Ansiedade Histórica
Imagine que, desde o nascimento, principalmente nos 6 primeiros anos de vida, outra porção de ansiedade e tensão seja depositada nesse copo, aumentando o nível inicial e preenchendo o copo quase que totalmente (fig. 2). Boa parte dessa dosagem é resultado do contato da criança com o mundo adulto. Basta considerar que a criança vai sendo exigida a vivenciar os desajustes, os valores e os conflitos do mundo adulto e da civilização, para logo se perceber que boa parte dessa dose é armazenada nessa fase do desenvolvimento. Quando a criança cresce, ela continua carregando consigo essa porção de ansiedade, armazenada durante a infância, sendo que, em muitos casos, parte dessa ansiedade mais atrapalha do que ajuda a sua vida. Chamarei essa "porção" de ansiedade histórica. Como que essa ansiedade pode atrapalhar a vida do adulto? Logo você entenderá.

Fig. 3. - Ansiedade Atual
Há um terceiro momento em que o copo é preenchido: trata-se das ansiedades e tensões adquiridas no dia a dia, como aquelas que são provenientes das humilhações no trabalho, das limitações da vida financeira, das dificuldades dos relacionamentos interpessoais, familiares e sociais, das transformações corporais, das derrotas no cotidiano etc. Quando essa dosagem é muito volumosa, pode acontecer que o copo transborde, devido ao acúmulo das tensões e ansiedades (fig. 3). A porção que transborda é o que se pode chamar de sintomas e/ou de comportamentos sentidos como prejudiciais para si e para os outros. Costuma-se dizer, quando isso acontece, que foi “a gota d’água”... Chamarei essa porção de ansiedade atual.



O que é a Psicanálise e para que ela serve?

Fig. 4.
A Psicanálise é uma forma psicoterapêutica de tratamento, que procura alcançar essa dimensão de ansiedade intermediária (mais profunda do que a atual) do copo, a saber, a dimensão adquirida com a infância e com os complexos mal resolvidos do indivíduo, e que persistem nas outras fases da vida. A psicanálise não diz para o indivíduo o que ele precisa fazer para remover as "ansiedades atuais", adquiridas no dia a dia; ela procura ajudar o indivíduo a perceber qual é a cota de "ansiedade histórica" que ele continua carregando em seu copo, de modo inconsciente, e como essa cota está comprometendo, no presente, o sucesso de sua vida. O objetivo é que o indivíduo consiga se adaptar e se equilibrar às três fontes de ansiedades, sem que ele sofra os prejuízos causados pelos traços desconhecidos da sua personalidade (fig. 4.).

Em outras palavras, a Psicanálise procura remover parte das ansiedades históricas, isto é, parte das ansiedades provocadas pelos traumas sofridos durante o desenvolvimento da criança, proporcionando uma vida mais saudável para o adolescente e/ou o adulto.

5 de novembro de 2016

Notas sobre Jung: Inconsciente Coletivo, Instintos e Arquétipos

O conceito de inconsciente do psicanalista Carl Gustav Jung é diferente do conceito de inconsciente do psicanalista Sigmund Freud. Ele é, para o primeiro, uma “fonte de criatividade e potencialidade”, de onde surgem os “impulsos que tomam forma na matéria, de acordo com o espaço e o tempo de uma pessoa”, enquanto que, para o segundo, ele é o “depositário de conteúdos reprimidos, imagens, vivências dolorosas cercadas pelos mecanismos de defesa do ego” (RAMOS, 2007: 183).

Foto: Ana Paula Previdelli Rocha
O inconsciente pode ser agrupado, na teoria junguiana, em inconsciente coletivo e inconsciente pessoal (individual). O primeiro foi descoberto quando Jung percebeu, nos "delírios dos loucos", que havia um “estoque coletivo de imagens e símbolos arcaicos” (HYDE, 2012: 59). Essas imagens continham uma realidade que recebeu o nome, em 1919, de arquétipos. Esse termo foi utilizado para se referir a essa memória que atravessa atemporalmente os indivíduos. Junto com os arquétipos estão os instintos, que também pertencem universalmente a todos os seres humanos.

Segundo Hyde (2012: 59), "os instintos são impulsos para executar ações ligadas à necessidade de sobrevivência e têm uma qualidade biológica"; são modos "inconscientes de compreensão que regulam nossa percepção" e que comandam as nossas ações. Os próprios instintos são arquétipos, já que são "formas inatas de intuição". Embora sejam "os dois lados da mesma moeda", a diferença que se pode fazer entre arquétipos e instintos é que, enquanto os primeiros determinam o modo de apreensão da realidade, os segundos determinam as ações: "tanto instintos quanto arquétipos são coletivos porque estão relacionados com o universal, conteúdos herdados para além do pessoal e do individual, e estão relacionados uns aos outros" (HYDE, 2012: 59).

A diferença que precisa ser feita é em relação aos arquétipos e às imagens arquetípicas. Os arquétipos apenas são inferidos, ao passo que as imagens arquetípicas adentram a consciência, se mostrando como o principal meio pelo qual se pode chegar àqueles. As imagens arquetípicas possuem uma existência material, ao passo que se revelam como imagens singulares.

Vargas (2007: 209) afirma, citando Jung, que “é na segunda metade da vida que o indivíduo vai entrar em contato com os arquétipos, matrizes de comportamento herdadas enquanto espécie, do inconsciente coletivo. Isso se dá exatamente pelo processo de individuação, no qual ele discrimina quatro fases: em primeiro lugar a conscientização da persona (máscara através da qual o indivíduo se relaciona com o Outro e com o mundo), em segundo lugar o confronto com a sombra (formada por conteúdos inconscientes que já deveriam estar na consciência), em terceiro lugar o encontro com anima (para o homem) ou com o animus (para a mulher) – arquétipos que trazem à consciência sua contraparte – e, finalmente, o encontro com o Self (ou si-mesmo), representado pelos arquétipos do velho sábio ou da velha sábia”.

Referências Bibliográficas
HYDE, Maggye; McGUINNESS, Michael. Entendendo Jung; tradução Adriana de Oliveira. São Paulo: Leya, 2012. 
RAMOS, D. G.; MACHADO JR, P. P. Individuação e Subjetivação. In: PINTO, Manuel da Costa (org.). Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007. 
VARGAS, Nairo S. Tornar-se si mesmo. In: PINTO, Manuel da Costa (org.). Livro de ouro da psicanálise. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.

30 de outubro de 2016

O Efeito Paliativo e seus Derivados no início do tratamento Psicanalítico

É possível observar um efeito nas primeiras sessões de psicoterapia. É o que chamarei, neste texto, de “efeito paliativo e seus derivados”. A ideia de assim nomeá-lo veio da minha prática como psicanalista e da teoria do psicanalista francês Gérard Pommier, apresentada no artigo do psicanalista e psicólogo Ricardo Baracho dos Anjos.

O Dr. Baracho esclarece que Pommier trabalhou com os conceitos de “efeito sujeito” e “efeito terapêutico”, ambos no contexto da “análise da transferência” (ler artigo). O “efeito sujeito” representa, grosso modo, a condição necessária para que o “efeito terapêutico” seja alcançado; ele se estabelece desde o início do tratamento, possibilitando um aprofundamento e uma passagem da dimensão intelectual para a dimensão ética do sujeito – que é a finalidade do processo.

Gostaria de contribuir para essa reflexão com uma breve descrição do “efeito paliativo e seus derivados”. O termo paliativo origina-se do latim pallium, que tanto pode significar “encobrir” quanto “amparar”.

Quando uma pessoa decide procurar ajuda psicoterapêutica, muitas vezes ela apresenta um conjunto de sofrimentos que a está sobrecarregando, seja no nível emocional, comportamental ou psicossomático. A tomada de decisão em buscar ajuda pode ativar, quase que de forma súbita, o “efeito paliativo”, ou seja, o indivíduo pode sentir um imediato melhoramento da sua situação desagradável. A crença de que o terapeuta é alguém que lhe ajudará, na medida em que uma aliança terapêutica for sendo construída, parece proporcionar, em alguns casos, a diminuição instantânea do sofrimento, gerando, com isso, os seguintes derivados do “efeito paliativo”:

1. Efeito Placebo:

O termo placebo recebe, atualmente, várias designações. O significado de que me valho, neste contexto, é o significado (não muito positivo) de “disfarce” e “dissimulação”. É relativamente comum algumas pessoas disfarçarem a si mesmas a necessidade de se engajarem num tratamento longo, que exige investimento de tempo, de deslocamento e de responsabilidades. Inúmeras desculpas são sustentadas, no dia a dia, para não se fazer academia, para não se estudar naquele longo curso, ou para não se ler aqueles inúmeros livros. O uso de drogas lícitas ou ilícitas, a descarga de emoções no show musical ou na presença do time de futebol, a ida ao consultório, ao hospital, ao confessionário, o bate papo com amigos de confiança e as diversas situações em que o indivíduo procura um alívio rápido também são alguns exemplos da ocorrência do “efeito placebo”. Quem nunca sentiu uma diminuição das dores quando chegou no Pronto Socorro de um hospital? Quem nunca se sentiu aliviado ao ficar horas desabafando a indignação nas costas do amigo? Quem nunca se sentiu melhor quando o seu time de futebol ganhou o clássico? E quantas satisfações não são experimentadas por aqueles que compartilham, nas redes sociais, a sua intimidade com todos (inclusive desconhecidos), na busca desesperada de uma curtida, de um comentário, de uma (per)seguida ou de um compartilhamento?

É exatamente esse efeito de alívio imediato que acontece em diversas situações ao longo do dia, e do qual algumas pessoas se tornam extremamente viciadas, que nomeio “efeito placebo”. No contexto da psicoterapia, esse “efeito” pode se instalar antes mesmo do “efeito sujeito” aparecer, já que a pessoa pode sentir um grande alívio só de telefonar ou teclar com o analista. Vale lembrar que esse “efeito” imediato é momentâneo, funcionando, muitas vezes, como um “disfarce” a serviço das resistências, impedindo o engajamento corajoso e comprometido com o “efeito terapêutico”.

2. Efeito Adiamento:

O “efeito adiamento” é concebido como sendo um aspecto positivo do “efeito paliativo”, onde se gera uma resposta benéfica ao tratamento. Semelhante ao “efeito placebo”, o “efeito adiamento” também provoca um alívio imediato da situação crítica, já que transfere para o futuro a reemissão de novas crises. Ele não atua, porém, no sentido de forçar a pessoa ao abandono do próprio enfrentamento interior, tal como o “efeito placebo” o faz. O “efeito adiamento” provoca a diminuição do sofrimento instantâneo ao mesmo tempo em que encoraja a pessoa na continuidade do tratamento. A sensação que comumente se experimenta com o “adiamento” é a sensação de melhora, com a consciência, porém, de que essa melhora não é ainda a cura desejada.

Esse “adiamento” também está presente em muitas situações do cotidiano, como, por exemplo, o aluno que deixa para estudar na véspera da prova. Sua angústia não é tão forte ao ponto de abandonar efetivamente a escola. Ele nutre a crença, contudo, de que deve continuar os estudos, mas que deve transferir a angustia de ser avaliado para o futuro, e, quem sabe, torcer para que um “milagre” aconteça.

Vale reafirmar, contudo, que o “adiamento” no contexto da psicoterapia é mais proveitoso do que no contexto escolar, já que neste o aluno pode conseguir a aprovação sem ter aprendido corretamente a matéria, enquanto naquele o indivíduo pode alcançar a melhora que deseja.  

3. Efeito Atenuante:

Considero o “efeito atenuante” a mais positiva face do “efeito paliativo”. Encontra-se, aqui, a diminuição imediata do sofrimento, já presente no “efeito placebo”, a consciência da transferência da cura para o futuro, semelhante ao “adiamento”, e o acréscimo da principal característica pretendida nessa fase do tratamento, que é, a saber, a presença do equilíbrio necessário, provocado pelo fortalecimento das funções positivas do Ego, com o objetivo de expandir a compreensão sobre a dimensão inconsciente e conflituosa do sujeito.

Essa última característica provoca, por si só, um fortalecimento das “funções superiores” da mente, contribuindo para que o indivíduo em tratamento percorra suas sombras mais densas. Tal fortalecimento do Ego conduz ao enfraquecimento do sofrimento.

O “efeito atenuante” é a porta de entrada e condição necessária para que o “efeito sujeito” possa se dar e ser trabalhado.    

Considerações finais:

O “efeito placebo”, o “efeito adiamento” e o “efeito atenuante” são aspectos do “efeito paliativo”, presente no momento da “pré-transferência”, onde a neurose transferencial ainda não se instalou por completo. Cabe ao psicanalista a compreensão, desde a entrevista preliminar, dessas possibilidades, com o objetivo de manejar essa situação da melhor forma, contribuindo para que as resistências iniciais sejam refletidas, repensadas e trabalhadas na cena presente.


12 de outubro de 2016

A Terapia Psicanalítica pode ajudar o indivíduo a conquistar uma vida mais plena e feliz?

Você já deve ter percebido como muitas pessoas sofrem quando se deparam com fortes frustrações. Parece óbvio pensar que ninguém concorda com a ideia de que “perder” seja algo bom. As perguntas que muitas pessoas se fazem são: "Por que alguns conseguem lidar melhor com as perdas do que outros?"; "Por que alguns parecem estar fortalecidos para suportarem essa realidade tão dolorosa?"; "Por que eu não consigo?".

O processo da perda acompanha o ser humano em todos os instantes da vida. Seja ao nível fisiológico, social, afetivo ou existencial, essa é uma realidade que o indivíduo precisa aprender a reelaborar a todo o momento, como se fosse uma ordem ou uma imposição da própria natureza. Basta estar vivo para sentir a necessidade de um reposicionamento diante dos problemas, que, na maioria das vezes, não se escolhe sofrer:

O corpo que envelhece e não responde mais aos desejos da mente, que, por sua vez, parece estar cada vez mais ávida de vida, de paixões e de experiências prazerosas...
O corpo que adoece de uma hora para a outra, atrapalhando uma série de projetos e objetivos que ainda precisam ser alcançados...
Os acidentes que assaltam o indivíduo sem explicação aparente, causados, muitas vezes, pela negligência e irresponsabilidade dos outros, ou causados, simplesmente, por situações gratuitas ao sabor do acaso...
Os cabelos que caem... a vista que embaça... o coração que descompassa... o pulmão que anuncia a falta, de ar.

Tudo parece romper a saúde mental!
A cada nova fase que se vive, a exigência de continuar, de se fortalecer e de não desistir se coloca como uma meta difícil de ser alcançada e mantida.

É importante perceber que, mesmo quando se está só e desamparado em seus dramas pessoais, ainda assim existem outras pessoas que passam ou passaram por situações semelhantes, e que conseguem ou conseguiram alcançar a superação de suas dificuldades.

É quando as frustrações se tornam insuportáveis que a pessoa pode descobrir a verdadeira força que tem.

A Terapia Psicanalítica se coloca como uma forte ferramenta à disposição do indivíduo, no sentido de auxiliá-lo a remover os obstáculos inconscientes que fazem parte da sua história pessoal, e que persistem em mantê-lo enfraquecido diante das perdas e frustrações que experimenta na dinâmica da vida; ela contribui para que o indivíduo se fortaleça e se oriente no caminho de uma existência mais presente, plena e feliz.

Tiago.

29 de fevereiro de 2016

Compra on line

Temas Filosóficos
 cinco lições básicas para curiosos


Autor: Tiago Monteiro Violante



Valor por unidade: R$ 30,00.


Imagem meramente ilustrativa



Informações Técnicas:

- 112 páginas;
- Capa com Laminação Fosca total na frente e Verniz UV localizado;
- Formato Fechado: 148 x 210 mm;
- Formato Aberto: 296 x 210mm;
- Contém orelhas com breve descrição sobre o autor;
- Espessura: aproximadamente 1 cm;
- Peso: aproximadamente 200 g.

20 de março de 2015

Não, eu não sou ateu.


O ateu que retrato aqui é aquele que possui a crença de que Deus foi criado por motivos subjetivamente humanos. Deus seria, nestes termos, o substituto ou a projeção de aspirações profundas, que partem do próprio desamparo, angústia e desespero humanos. "Uma necessidade de causas", diriam uns; "uma necessidade de pai", afirmariam outros; "quem sabe não seja a projeção idealizada do maior desejo que os mortais teriam, a saber, o desejo da própria imortalidade" -- alguns ainda poderiam pensar.

 
Mas não, eu não sou ateu.

Eu acredito que Deus foi criado por motivos subjetivamente humanos. Deus é o substituto das minhas aspirações profundas, tais como, por exemplo, o desejo de poder, de controle, do necessário (no sentido filosófico)... Deus representa a minha necessidade de causa sui, de pai protetor, de imortalidade...

Sim, eu não sou ateu.

Um mal na Psicanálise talvez seja alguns psicanalistas, já que estes se convenceriam que estão diante de um "ato falho". Um mal na Filosofia talvez seja alguns filósofos, já que estes concluiriam que isto não tem sentido ou que se trata de uma contradição. Um mal na Humanidade talvez seja alguns humanos, uma vez que estes brigariam para que eu me calasse...

Eu não sou ateu por um simples motivo: eu duvido do meu ateísmo na mesma medida em que percebo que o simbólico simboliza o simbolizado. Em outros termos, percebo que o significado traz em si a possibilidade da própria possibilidade. Deus é uma possibilidade do significado; ser ateu é outra possibilidade. Mas o significado também pode ser uma possibilidade de Deus, caso ele exista para além (ou aquém) da significação. Possibilidades é o que parece não faltarem.

Talvez eu seja ateu; talvez não o seja; quem sabe um paranoico... Quantas classificações!

Não me defino absolutamente. Talvez você esteja querendo fazer isto por mim. Talvez você precise disso. Mas não, eu não preciso que você precise disso. Farei isso "sozinho": eu não sou ateu na mesma medida em que acredito que Deus não existe.
  
          

29 de dezembro de 2014

"Que a terra lhe seja leve"

Hoje faleceu um grande cachorro amigo. Talvez seja melhor dizer que foi um grande amigo cachorro. Conheci o Coronel em 2006, quando ele tinha 1 ano. Eu e o seu dono fomos morar juntos no ano seguinte. Por cerca de 2 anos o Coronel foi nosso companheiro de todos os dias; o marido da minha cachorra Gaia e pai de seus 5 filhotes. Não havia tido a experiência, até então, de conhecer um cachorro com tais características: lembro, por exemplo, de quando ele levava um bronca e se sentava encostado na parede e com a cabeça levantada; ficava olhando de "rabo de olho" enquanto se escorava. Quando fazia algo que nos descontentava, também assim se comportava. Era tão marcante esta sua característica que, por vezes, transportávamos este comportamento também para nossas vidas, e caíamos na gargalhada em homenagem a ele.
Outro traço marcante era a sua mansidão impar. Quando acuado, não revidava. Era extremamente carinhoso e educado. Sentava-se por perto e por ali ficava serenamente acomodado. Três fatos marcantes também compõem minhas lembranças: (1) ele fora encontrado abandonado na sarjeta e amado com o cuidado que se tem por alguém que se ama; (2) ele sobreviveu a uma intoxicação por produtos químicos; (3) e sobreviveu a um ataque de cachorro que lhe custou cirurgia, repouso e sequelas. 
Enfim, a presença do Coronel confere um sentido puro e intenso a minha existência. Hoje também celebro ter o encontrado e ter vivido, junto com ele, esta manifestação chamada vida; celebro todos os momentos em que fomos testemunhas e partícipes um da vida do outro. Ao meu amigo Antonio, confiro toda a minha admiração pelo lindo gesto de amor (eutanásia) que conduziu o Coronel ao fim do sofrimento que seus rins estavam provocando, quando falharam em sua função. Uma decisão difícil, e que julgo a mais coerente.

Aos que morreram e aos que permanecem vivos, só desejo o que um dos versos de Belchior, ouvido tantas vezes também pelo próprio Coronel, nos cantou: "que a terra lhe seja leve". 
                 

17 de novembro de 2014

O reflexo da filosofia?

O campo do simbólico me constitui. Mas seria possível que ele se auto constituísse? Mais do que possível é, precisamente, necessário que assim o seja. Nesta auto constituição ele procura, ou pode procurar, um fundamento que seja não simbólico. No momento em que este fundamento é concebido, porém, torna-se, logo em seguida, um fundamento simbolizado: o não simbólico pertence ao simbólico na mesma medida que o impensado pertence ao pensado. Se alguma verdade existe para além do que se pode significar, esta não será encontrada a não ser que carregue em si mesma a indelével marca do significado. Se o simbólico pode procurar o reconhecimento (ou a criação) de um fundamento que o reflita a si mesmo, a presença ou a ausência de um critério seguro para que tal procura se finde só pode ser estabelecida por ele mesmo.
 
Toda a questão da verdade, colocada nestes termos, só pode ser uma questão restrita ao humano, mas nem todo o humano pode ou deve assumir esta questão como a sua verdade. É sempre possível conceber uma região simbólica que não necessite se dar ao modo reflexivo, entendendo este termo como a necessidade de procurar um fundamento de si mesmo. A filosofia é, portanto, apenas uma necessidade (ou exigência) criada (ou sentida) simbolicamente por uma cultura para responder a uma questão que esta mesma cultura se colocou: como é possível ser o que se é? Esta questão foi e continua sendo, a meu ver, a questão fundamental daqueles que necessitam compreender a própria existência sob a égide de um critério tido como, no mínimo, logicamente seguro para o discurso. Talvez, por isto mesmo, ela represente como ninguém mais representa a busca pela verdadeira (e não a mais bela) imagem de si.

18 de agosto de 2013

Justificação aos estudantes de Artes Visuais sobre os procedimentos da Disciplina de Filosofia


Existe uma relação possível entre os físicos Newton e Einstein: este seria a superação daquele, e se a humanidade ainda insiste em falar sobre Newton, nada mais é do que para assumir seu valor historiográfico e/ou didático numa fase do Ensino Básico. A mesma compreensão não pode ser, no entanto, transportada para a relação entre os filósofos Platão e Foucault. Este não é a superação daquele, nem tampouco Platão poderia ser considerado ultrapassado em relação ao pensador francês, já que em filosofia se avalia mais o poder (onto) lógico do que o poder cronológico das teorias. Se o paradigma einsteiniano compreende e explica os fenômenos que o paradigma newtoniano falhou em compreender, ao ponto de se descartar o valor prático deste em função daquele, em filosofia o mesmo não acontece. Se Foucault constrói conceitos que se mostram importantes na compreensão do contemporâneo, não o faz contra Platão, mas com ele e apesar dele; Platão é a base do contexto pelo qual a trama conceitual é tecida em filosofia, proporcionando a vivacidade e a inteligibilidade da filosofia contemporânea. A rede filosófica está lançada e cada pensador representa um nó na compreensão e na descrição da existência.
Quem está mais próximo da disciplina de filosofia sabe que perpassa, em toda a sua história, duas ideias de ordem, por assim dizer, em relação a todos aqueles que enfrentam com seriedade suas exigências. Tais ideias são representadas por duas frases – não tão clichês quanto podem parecer – encontradas na época do filósofo Sócrates: “só sei que nada sei” e “conhece-te a ti mesmo”.
A primeira é pronunciada no momento tão caro a todos aqueles que se colocam no filosofar: o momento da crise, isto é, o momento em que se reconhece que as crenças cotidianas, irrefletidas e naturais assumem um lugar de supervalorização e substituição do que se entende e se vivencia por realidade, ou, numa linguagem não menos filosófica, por verdade (alétheia). Reconhecer a crise em si mesmo não é o fim desejado pelo filósofo, mas o começo e a possibilidade de se adotar uma atitude reflexiva e filosófica propriamente dita. Pronunciar o “só sei que nada sei” socrático é admitir uma crosta de ignorância que perpassa o próprio ser do humano, e tal crosta, entendida como nefasta por grande parte dos filósofos, deve ser combatida e rejeitada por aqueles onde a angústia se faz ser. Penso que mais vale uma vida de crise do que uma vida de certezas absurdas. Quem consegue atingir este status consegue combater uma das doenças mais desprezíveis que existe em nossa cultura: o dogmatismo (preconceituoso). Uma atitude dogmática, por exemplo, torna-se o fundamento de uma atitude de violência contra o diferente; uma atitude de crise faz, ao contrário, o ser humano reconhecer a possibilidade de estar errado sobre o que acreditava, fazendo-o sopesar ao menos duas vezes antes de agir inconsequentemente. O primeiro passo para quem quiser se apropriar da filosofia é reconhecer suas próprias convicções, procurando sua origem, seu sentido e sua natureza. Por este motivo, informei aos estudantes, do primeiro ano matutino e noturno do curso de artes visuais, que tentaríamos colocar o conceito de arte em crise; tentaríamos acompanhar como alguns pensadores partiram desta crise para procurar estabelecer uma suposta linha demarcatória entre o que é arte daquilo que não o é.
A segunda frase é, talvez, a principal ordem na filosofia: conhecer a si mesmo independentemente do caminho e do local onde se passará e se chegará: o que importa é a compreensão, seja ela intuitiva ou lógica, respeitando, obviamente, critérios estritamente filosóficos que nunca estiveram ausentes de nenhum pensador (pelo menos não dos que conheço por filósofos). Pode parecer complexo, mas por mais complexo que seja, parece ser simples o caminho a ser percorrido: se arte (ars, tékne, póiesis) é uma criação cultural, valorativa e histórica, portanto, humana, a pergunta que não se deve calar é a seguinte: quem é ou o que é este que produz algo a partir de algo e que pretende classificar este procedimento de arte? Propus aos estudantes, por compreender que não se delimita algo humano sem saber primeiramente quem é este humano, uma abordagem sobre os fundamentos filosóficos da teoria psicanalítica de Sigmund Freud e das teorias fenomenológicas de Edmund Husserl, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty e Martin Heidegger. Não mantive ausente, contudo, uma introdução de alguns termos, apresentados por Benedito Nunes, que julgo importantes para a construção de um horizonte de discussão no campo da filosofia da arte.
Se o interesse do estudante é o de aprender aquilo que a filosofia pode ensinar, a primeira postura deve ser a de buscar, e não a de receber. Os livros para serem apresentados nos seminários estão oferecidos à celebração; dificuldades muitos têm; transferir as fraquezas para outrem, muitos fazem. Qual será a atitude do (a) ilustre estudante de Artes Visuais? Espero que este momento fecundo de discussão possa servir para semearmos ideias e ideais, assim como os seminários semearão a vitória do curso.
Vejo mais como um sinal de força do que de fraqueza o fato de que minhas limitações no campo da filosofia, no campo da arte e até no campo da existência não tenham sido obscurecidas por um discurso pedante-introdutório, já que considero a autenticidade um valor a ser constantemente buscado e a hipocrisia um valor a ser constantemente rechaçado.