27 de fevereiro de 2017

Sobre o conceito de sexualidade


Pensar a sexualidade a partir de um referencial teórico psicanalítico é pensá-la a partir de um registro biológico, sociocultural e psíquico.

Como entender a sexualidade, segundo a Psicanálise?

Consideremos o ser humano como um animal mamífero, capaz de se alimentar e de defecar, capaz de "trocar" produtos sexuais (óvulos e espermatozoides) entre si, visando a preservação da espécie -- dentre outras características. Ele é, também, um ser social e cultural, o que o faz existir em relação a outros indivíduos, imersos num mundo de valores éticos, estéticos e políticos. Ele é, considerando essa esfera biológica e sociocultural, um animal humano.

Considerá-lo apenas a partir desses dois registros é, contudo, reduzi-lo a um campo de investigação estritamente objetivo, que desconsidera aquilo que ele talvez tenha de mais próximo, a saber, a sua subjetividade, também nomeada de registro psíquico. O ser humano é também um sujeito que se relaciona, que se identifica, que se emociona, enfim, que se posiciona frente ao biológico e ao sociocultural. Dizemos que ele é, nesse sentido, um ser psíquico. Melhor será chamá-lo de ser humano, considerando-o, evidentemente, como um animal humano e psíquico.

Pensar psicanaliticamente a sexualidade é partir de uma lógica que a concebe como originária do registro biológico, ou seja, de uma fonte estritamente animal. A sexualidade é, nesse contexto, um modo de ser desse animal que o humano é; é um modo de ser que se confunde com uma busca pela satisfação e pelo prazer. Freud afirma que toda pulsão sexual tem um órgão como fonte, uma força quantitativa de pressão como característica, uma necessidade de se ligar a um objeto como meio e um objetivo de se satisfazer como fim. Essa satisfação é o que nomeamos prazer. Sexualidade é prazer, seja lá por qual meio (objeto) ela se realize.

Afirmar que o ser humano é sexualidade é o mesmo que afirmar que ele busca se afastar do desprazer para alcançar a satisfação e o prazer. Sendo assim, quando ele se alimenta e sente prazer nessa alimentação, quando ele lê um livro e sente prazer nessa leitura, quando ele desenvolve um diálogo e sente prazer nesse diálogo, ou mesmo quando ele se relaciona sexualmente com outro indivíduo e se satisfaz nessa relação, dizemos que ele está sendo essa sexualidade, e que essa sexualidade o atravessa integralmente, desde o biológico até o psíquico.

Como se percebe, a sexualidade não diz respeito apenas ao sexo em si, tal como alguns compreendem quando a reduz, por exemplo, ao uso dos órgãos genitais. Sexualidade é um modo de ser, um sentido que perpassa tudo o que o ser humano produz em sua existência.

A questão que torna o assunto complexo é a questão de que esse registro biológico não existe separado do registro sociocultural e do registro psíquico. Nesse sentido, a sexualidade se manifesta também em relação ao mundo simbólico, que é o mundo da sociedade, da cultura e da subjetividade. Tais mundos são os objetos (meios) pelos quais a satisfação é alcançada, seja da forma que for, inclusive através de diversos sintomas que se manifestam em alterações fisiológicas. 

É nesse contexto que surgem duas questões polêmicas, como, por exemplo, as questões que interrogam se: (1ª) "há determinação entre o registro biológico e os outros registros?"; ou se: (2ª) "há apenas condicionamento entre eles?".

Ana Paula Previdelli Rocha
Assumir a primeira resposta é o mesmo que afirmar a posição de que há determinação da sexualidade em relação a um objeto específico, tal como, por exemplo, a afirmação de que um indivíduo que nascera como macho, devido ao seu aparelho reprodutor, estaria naturalmente determinado a buscar um indivíduo que nascera como fêmea, para que o prazer pudesse ocorrer. Assumir a segunda resposta é o mesmo que libertar a pulsão dessa determinação com um tal objeto específico, afirmando que a sexualidade pode se realizar de um modo não programado anteriormente, mas sim condicionado por diversos fatores que se ligam durante o desenvolvimento empírico do indivíduo.

É nessa segunda resposta que compreendo o estabelecimento da teoria psicanalítica, no que diz respeito ao conceito de sexualidade. Assim sendo, a sexualidade é, em si mesma e a priori, livre de um objeto específico; ela é uma condição de possibilidade dos sentidos experimentados pelo ser humano; é uma condição sempre vivenciada e construída em concomitância aos registros simbólicos, e estes são, por sua vez, sempre relativos entre si.

A sexualidade é livre em seu registro originário e biológico, sendo apenas na vicissitude do seu desenvolvimento que ela se liga ao mundo da cultura, da sociedade e da subjetividade do indivíduo.

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