30 de outubro de 2016

O Efeito Paliativo e seus Derivados no início do tratamento Psicanalítico

É possível observar um efeito nas primeiras sessões de psicoterapia. É o que chamarei, neste texto, de “efeito paliativo e seus derivados”. A ideia de assim nomeá-lo veio da minha prática como psicanalista e da teoria do psicanalista francês Gérard Pommier, apresentada no artigo do psicanalista e psicólogo Ricardo Baracho dos Anjos.

O Dr. Baracho esclarece que Pommier trabalhou com os conceitos de “efeito sujeito” e “efeito terapêutico”, ambos no contexto da “análise da transferência” (ler artigo). O “efeito sujeito” representa, grosso modo, a condição necessária para que o “efeito terapêutico” seja alcançado; ele se estabelece desde o início do tratamento, possibilitando um aprofundamento e uma passagem da dimensão intelectual para a dimensão ética do sujeito – que é a finalidade do processo.

Gostaria de contribuir para essa reflexão com uma breve descrição do “efeito paliativo e seus derivados”. O termo paliativo origina-se do latim pallium, que tanto pode significar “encobrir” quanto “amparar”.

Quando uma pessoa decide procurar ajuda psicoterapêutica, muitas vezes ela apresenta um conjunto de sofrimentos que a está sobrecarregando, seja no nível emocional, comportamental ou psicossomático. A tomada de decisão em buscar ajuda pode ativar, quase que de forma súbita, o “efeito paliativo”, ou seja, o indivíduo pode sentir um imediato melhoramento da sua situação desagradável. A crença de que o terapeuta é alguém que lhe ajudará, na medida em que uma aliança terapêutica for sendo construída, parece proporcionar, em alguns casos, a diminuição instantânea do sofrimento, gerando, com isso, os seguintes derivados do “efeito paliativo”:

1. Efeito Placebo:

O termo placebo recebe, atualmente, várias designações. O significado de que me valho, neste contexto, é o significado (não muito positivo) de “disfarce” e “dissimulação”. É relativamente comum algumas pessoas disfarçarem a si mesmas a necessidade de se engajarem num tratamento longo, que exige investimento de tempo, de deslocamento e de responsabilidades. Inúmeras desculpas são sustentadas, no dia a dia, para não se fazer academia, para não se estudar naquele longo curso, ou para não se ler aqueles inúmeros livros. O uso de drogas lícitas ou ilícitas, a descarga de emoções no show musical ou na presença do time de futebol, a ida ao consultório, ao hospital, ao confessionário, o bate papo com amigos de confiança e as diversas situações em que o indivíduo procura um alívio rápido também são alguns exemplos da ocorrência do “efeito placebo”. Quem nunca sentiu uma diminuição das dores quando chegou no Pronto Socorro de um hospital? Quem nunca se sentiu aliviado ao ficar horas desabafando a indignação nas costas do amigo? Quem nunca se sentiu melhor quando o seu time de futebol ganhou o clássico? E quantas satisfações não são experimentadas por aqueles que compartilham, nas redes sociais, a sua intimidade com todos (inclusive desconhecidos), na busca desesperada de uma curtida, de um comentário, de uma (per)seguida ou de um compartilhamento?

É exatamente esse efeito de alívio imediato que acontece em diversas situações ao longo do dia, e do qual algumas pessoas se tornam extremamente viciadas, que nomeio “efeito placebo”. No contexto da psicoterapia, esse “efeito” pode se instalar antes mesmo do “efeito sujeito” aparecer, já que a pessoa pode sentir um grande alívio só de telefonar ou teclar com o analista. Vale lembrar que esse “efeito” imediato é momentâneo, funcionando, muitas vezes, como um “disfarce” a serviço das resistências, impedindo o engajamento corajoso e comprometido com o “efeito terapêutico”.

2. Efeito Adiamento:

O “efeito adiamento” é concebido como sendo um aspecto positivo do “efeito paliativo”, onde se gera uma resposta benéfica ao tratamento. Semelhante ao “efeito placebo”, o “efeito adiamento” também provoca um alívio imediato da situação crítica, já que transfere para o futuro a reemissão de novas crises. Ele não atua, porém, no sentido de forçar a pessoa ao abandono do próprio enfrentamento interior, tal como o “efeito placebo” o faz. O “efeito adiamento” provoca a diminuição do sofrimento instantâneo ao mesmo tempo em que encoraja a pessoa na continuidade do tratamento. A sensação que comumente se experimenta com o “adiamento” é a sensação de melhora, com a consciência, porém, de que essa melhora não é ainda a cura desejada.

Esse “adiamento” também está presente em muitas situações do cotidiano, como, por exemplo, o aluno que deixa para estudar na véspera da prova. Sua angústia não é tão forte ao ponto de abandonar efetivamente a escola. Ele nutre a crença, contudo, de que deve continuar os estudos, mas que deve transferir a angustia de ser avaliado para o futuro, e, quem sabe, torcer para que um “milagre” aconteça.

Vale reafirmar, contudo, que o “adiamento” no contexto da psicoterapia é mais proveitoso do que no contexto escolar, já que neste o aluno pode conseguir a aprovação sem ter aprendido corretamente a matéria, enquanto naquele o indivíduo pode alcançar a melhora que deseja.  

3. Efeito Atenuante:

Considero o “efeito atenuante” a mais positiva face do “efeito paliativo”. Encontra-se, aqui, a diminuição imediata do sofrimento, já presente no “efeito placebo”, a consciência da transferência da cura para o futuro, semelhante ao “adiamento”, e o acréscimo da principal característica pretendida nessa fase do tratamento, que é, a saber, a presença do equilíbrio necessário, provocado pelo fortalecimento das funções positivas do Ego, com o objetivo de expandir a compreensão sobre a dimensão inconsciente e conflituosa do sujeito.

Essa última característica provoca, por si só, um fortalecimento das “funções superiores” da mente, contribuindo para que o indivíduo em tratamento percorra suas sombras mais densas. Tal fortalecimento do Ego conduz ao enfraquecimento do sofrimento.

O “efeito atenuante” é a porta de entrada e condição necessária para que o “efeito sujeito” possa se dar e ser trabalhado.    

Considerações finais:

O “efeito placebo”, o “efeito adiamento” e o “efeito atenuante” são aspectos do “efeito paliativo”, presente no momento da “pré-transferência”, onde a neurose transferencial ainda não se instalou por completo. Cabe ao psicanalista a compreensão, desde a entrevista preliminar, dessas possibilidades, com o objetivo de manejar essa situação da melhor forma, contribuindo para que as resistências iniciais sejam refletidas, repensadas e trabalhadas na cena presente.


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