9 de maio de 2012

Filosofia “ao pé da letra”: experiências com textos filosóficos na EJA *

Sabe-se que a EJA (Educação de Jovens e Adultos) foi instituída com a finalidade, dentre outras, de promover o desenvolvimento da autonomia intelectual do estudante privado dos estudos em alguma etapa da sua vida. As diretrizes que norteiam os trabalhos com esta modalidade almejam a emancipação humana através do exercício de uma cidadania democrática. Através de seus eixos temáticos, a disciplina de Filosofia pode oferecer, no contexto da EJA, importantes reflexões sobre “o como” e sobre “o que” os filósofos pensaram e discutiram racionalmente no decurso da história, aproximando os estudantes aos temas que eles já vivenciam silenciosamente. Convencido de que tal experiência deve ser lenta para ser eficaz, e concentrada para ser permanente, o texto filosófico – ou aquele que versa sobre filosofia – se mostra, sobretudo, como o “solo” firme e duradouro no qual a experiência filosófica se dá e se repete, auxiliando o estudante a confrontar inúmeras dificuldades herdadas de uma história segregadora. Pensando em combater tais dificuldades, trabalhou-se o texto filosófico na expectativa de se compreender a receptividade dos alunos e quais os níveis de comprometimento e de reflexão decorridos desta experiência. Alguns conceitos básicos da Filosofia foram reconstruídos, garantindo algumas condições necessárias para a inserção do texto filosófico. Iniciou-se, em 2011, a primeira meditação e o começo da segunda, do filósofo René Descartes, o texto Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral, do filósofo Nietzsche e o texto de Jean-Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo – todos disponibilizados pelo Governo do Paraná, através do livro intitulado Antologia de textos filosóficos. Leu-se cada parágrafo, utilizando-se dicionários e exposições para que o entendimento se fizesse concomitante à leitura. As dificuldades observadas nesta experiência se resumiram a uma linguagem pouco acessível à experiência individual do estudante, causando sérios desestímulos que quase comprometeram o trabalho. O ano de 2012 apresentou uma novidade: o livro didático de Filosofia (da autora Marilena Chauí), trazendo consigo a promessa de uma linguagem menos rebuscada e uma maior eficácia na relação entre os filósofos e o dia a dia do estudante. Os estudantes compreenderam alguns conceitos básicos e em seguida iniciaram a produção de um texto próprio, onde explicaram o texto da Guiomar de Grammon, Ler devia ser proibido, através dos conceitos filosóficos trabalhados no livro didático. Esta experiência diagnosticou algumas dificuldades: interpretação e produção de texto a partir dos conceitos filosóficos; e o distanciamento/lentidão que a leitura filosófica representa em relação às exigências no cotidiano do estudante. A experiência da leitura, discussão e construção do conhecimento a partir de textos filosóficos tem surtido, entretanto, inúmeros benefícios para alunos da EJA na cidade de Londrina/PR. Desde o primeiro contato com um léxico variado e técnico, até o reconhecimento de certa “paciência” para a construção do conceito, a experiência com a leitura mostrou que se podem inserir alunos desta modalidade no crescente número de cidadãos que passam a respeitar e a valorizar o trabalho milenar dos filósofos e, consequentemente, cumprir as demandas e objetivos propostos pelas Diretrizes Curriculares da Educação de Jovens e Adultos.
_______________________________________________
(*) Resumo selecionado para publicação e apresentação no XV Encontro Nacional da ANPOF, a ser realizado em outubro de 2012.