11 de dezembro de 2016

Sobre Neurose e Psicose

Freud escreveu um texto, no final de 1923, intitulado Neurose e Psicose. Não se trata de um texto cuja abordagem se mostre pormenorizada a respeito do assunto. A intenção de Freud foi mais atualizar a linguagem frente à sua teoria estrutural, apresentada em O Ego e o Id (1923), do que propriamente descrever em detalhes o que é, como funciona e quais os tipos de neurose e psicose que ocorrem. Sendo assim, nem todas as formas de neurose e psicose são abordadas, mas certa diferença genética entre ambas. Freud afirma que "a neurose é o resultado de um conflito entre o ego e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo externo" (FREUD, 1996, p. 167).

Freud faz referência às análises que demonstraram que as neuroses transferenciais são originadas de uma recusa do Ego em aceitar um forte impulso instintual do Id, recusando-o ou impedindo-o de se escoar. O Ego se utiliza, nesse caso, do mecanismo de defesa da repressão. O reprimido cria representações substitutivas que forçam uma conciliação com o Ego. Tais representações são percebidas como sintomas. O Ego continua o processo de combate desses derivados do reprimido, gerando um quadro psíquico chamado de neurose de transferência; ele entra em conflito com o Id, a serviço do Superego e da realidade.

Algo semelhante ocorre com o mecanismo das psicoses, a saber, um distúrbio no relacionamento entre o Ego e o mundo externo. Segundo Freud, a amência de Meynert é um caso extremo e notável de psicose, onde o mundo exterior não é percebido de modo algum. Mesmo a cópia do mundo exterior, armazenada nas lembranças do sujeito e chamada de mundo interno, perde a sua significação (catexia). É nesse momento que o Ego procura criar um novo mundo interno e externo através do delírio e da alucinação; tal criação atende a dois fatos: está de acordo com as exigências dos impulsos desejosos do Id; e o motivo da dissociação do ego com o mundo externo está ancorado numa frustração intolerável, muito séria, de um desejo. A esquizofrenia é outra forma de psicose, onde a gênese dos delírios se encontra numa espécie de remendo no lugar de onde uma fenda na relação do Ego com o mundo externo apareceu.

Freud defende que a "etiologia comum ao início de uma psiconeurose e de uma psicose sempre permanece a mesma. Ela consiste em uma frustração, em uma não-realização, de um daqueles desejos de infância que nunca são vencidos e que estão tão profundamente enraizados em nossa organização filogeneticamente determinada" (FREUD, 1996, p. 169). Como conclusão, o autor afirma que as neuroses e as psicoses se originam nos conflitos do Ego com as suas diversas instâncias governantes, refletindo um fracasso na tentativa de reconciliação das várias exigências feitas a ele.

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FREUD, Sigmund. Neurose e Psicose. In: ESB. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

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