23 de novembro de 2016

A diferença entre Psicanálise, Psicologia e Psiquiatria

É comum encontrarmos alguns textos informativos em que a Psicanálise é apresentada na comparação com a Psicologia e com a Psiquiatria. Tais textos afirmam, resumidamente, que a Psiquiatria remove os sintomas do paciente através do uso de medicações psicotrópicas; afirmam, também, que tais medicamentos não curam definitivamente a causa das doenças, quando estas são de origem emocional. Uma pessoa que sofre, por exemplo, de fortes dores no peito, quando provocadas por uma alta dose de ansiedade e tensão, pode fazer uso de um medicamento chamado ansiolítico (receitado pelo médico), que funciona para tranquilizá-lo e para que desapareça suas dores.

A Psicologia é apresentada como uma psicoterapia capaz de proporcionar o desaparecimento desses mesmos sintomas. Utilizando-se de expressão oral, visual, gestual, musical, ou tantas outras técnicas em geral, o psicólogo compreende e faz o paciente compreender as causas comportamentais que geram as emoções sentidas como “dores no peito”. Com a modificação do comportamento e com o reposicionamento das atitudes frente à realidade, evidencia-se o desaparecimento dos sintomas, sem que se precise, portanto, da utilização das drogas psicoativas.

A Psicanálise é apresentada, por sua vez, como uma forma de curar definitivamente os sintomas, na medida em que compreende que as causas desses males estão enraizadas na personalidade do indivíduo. Essa personalidade fora construída, principalmente, na primeira infância.

Quero chamar a atenção para dois aspectos contidos nessas breves descrições: 1º) esses textos vulgarizam as três ciências e desconsideram toda a riqueza conceitual e prática que os profissionais dessas áreas enfrentam em sua formação e no dia a dia de sua prática clínica; 2º) essa vulgarização é, entretanto, extremamente importante para que o público leigo tenha uma primeira perspectiva sobre as diferenças entre elas, e para que ele tenha uma primeira noção das características de cada uma.

Sendo assim, coloco-me na perspectiva de apresentar o que é a Psicanálise e para que ela serve, procurando simplificar a explicação e sem deformar a ciência em suas características essenciais.
   
A Metáfora do Copo

Fig. 1. - Ansiedade Natural
Imagine que cada indivíduo seja um copo; que cada um nasceu com uma dosagem de tensão e ansiedade preenchendo parte de si (fig. 1.). Cada indivíduo possui uma dose diferente, sendo que uns estão naturalmente mais cheios do que outros. Chamarei essa dosagem de ansiedade natural, já que ela está presente naturalmente como uma forma de combustível para que a vida aconteça.

Fig. 2. - Ansiedade Histórica
Imagine que, desde o nascimento, principalmente nos 6 primeiros anos de vida, outra porção de ansiedade e tensão seja depositada nesse copo, aumentando o nível inicial e preenchendo o copo quase que totalmente (fig. 2). Boa parte dessa dosagem é resultado do contato da criança com o mundo adulto. Basta considerar que a criança vai sendo exigida a vivenciar os desajustes, os valores e os conflitos do mundo adulto e da civilização, para logo se perceber que boa parte dessa dose é armazenada nessa fase do desenvolvimento. Quando a criança cresce, ela continua carregando consigo essa porção de ansiedade, armazenada durante a infância, sendo que, em muitos casos, parte dessa ansiedade mais atrapalha do que ajuda a sua vida. Chamarei essa "porção" de ansiedade histórica. Como que essa ansiedade pode atrapalhar a vida do adulto? Logo você entenderá.

Fig. 3. - Ansiedade Atual
Há um terceiro momento em que o copo é preenchido: trata-se das ansiedades e tensões adquiridas no dia a dia, como aquelas que são provenientes das humilhações no trabalho, das limitações da vida financeira, das dificuldades dos relacionamentos interpessoais, familiares e sociais, das transformações corporais, das derrotas no cotidiano etc. Quando essa dosagem é muito volumosa, pode acontecer que o copo transborde, devido ao acúmulo das tensões e ansiedades (fig. 3). A porção que transborda é o que se pode chamar de sintomas e/ou de comportamentos sentidos como prejudiciais para si e para os outros. Costuma-se dizer, quando isso acontece, que foi “a gota d’água”... Chamarei essa porção de ansiedade atual.



O que é a Psicanálise e para que ela serve?

Fig. 4.
A Psicanálise é uma forma psicoterapêutica de tratamento, que procura alcançar essa dimensão de ansiedade intermediária (mais profunda do que a atual) do copo, a saber, a dimensão adquirida com a infância e com os complexos mal resolvidos do indivíduo, e que persistem nas outras fases da vida. A psicanálise não diz para o indivíduo o que ele precisa fazer para remover as "ansiedades atuais", adquiridas no dia a dia; ela procura ajudar o indivíduo a perceber qual é a cota de "ansiedade histórica" que ele continua carregando em seu copo, de modo inconsciente, e como essa cota está comprometendo, no presente, o sucesso de sua vida. O objetivo é que o indivíduo consiga se adaptar e se equilibrar às três fontes de ansiedades, sem que ele sofra os prejuízos causados pelos traços desconhecidos da sua personalidade (fig. 4.).

Em outras palavras, a Psicanálise procura remover parte das ansiedades históricas, isto é, parte das ansiedades provocadas pelos traumas sofridos durante o desenvolvimento da criança, proporcionando uma vida mais saudável para o adolescente e/ou o adulto.

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