20 de março de 2015

Não, eu não sou ateu.


O ateu que retrato aqui é aquele que possui a crença de que Deus foi criado por motivos subjetivamente humanos. Deus seria, nestes termos, o substituto ou a projeção de aspirações profundas, que partem do próprio desamparo, angústia e desespero humanos. "Uma necessidade de causas", diriam uns; "uma necessidade de pai", afirmariam outros; "quem sabe não seja a projeção idealizada do maior desejo que os mortais teriam, a saber, o desejo da própria imortalidade" -- alguns ainda poderiam pensar.

 
Mas não, eu não sou ateu.

Eu acredito que Deus foi criado por motivos subjetivamente humanos. Deus é o substituto das minhas aspirações profundas, tais como, por exemplo, o desejo de poder, de controle, do necessário (no sentido filosófico)... Deus representa a minha necessidade de causa sui, de pai protetor, de imortalidade...

Sim, eu não sou ateu.

Um mal na Psicanálise talvez seja alguns psicanalistas, já que estes se convenceriam que estão diante de um "ato falho". Um mal na Filosofia talvez seja alguns filósofos, já que estes concluiriam que isto não tem sentido ou que se trata de uma contradição. Um mal na Humanidade talvez seja alguns humanos, uma vez que estes brigariam para que eu me calasse...

Eu não sou ateu por um simples motivo: eu duvido do meu ateísmo na mesma medida em que percebo que o simbólico simboliza o simbolizado. Em outros termos, percebo que o significado traz em si a possibilidade da própria possibilidade. Deus é uma possibilidade do significado; ser ateu é outra possibilidade. Mas o significado também pode ser uma possibilidade de Deus, caso ele exista para além (ou aquém) da significação. Possibilidades é o que parece não faltarem.

Talvez eu seja ateu; talvez não o seja; quem sabe um paranoico... Quantas classificações!

Não me defino absolutamente. Talvez você esteja querendo fazer isto por mim. Talvez você precise disso. Mas não, eu não preciso que você precise disso. Farei isso "sozinho": eu não sou ateu na mesma medida em que acredito que Deus não existe.
  
          

3 comentários:

  1. Gostei da sua definição! Parece-me bastante consciente de si mesmo e, parece-me também, que há uma necessidade de falar D'Ele ou sobre Ele ou se Ele existe ou não.

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  2. Muito original a reflexão.
    Você tem algum parentesco com o Prof. Monteiro Violante que foi prof. de Português em Marília-SP na década de 60?

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