29 de dezembro de 2014

"Que a terra lhe seja leve"

Hoje faleceu um grande cachorro amigo. Talvez seja melhor dizer que foi um grande amigo cachorro. Conheci o Coronel em 2006, quando ele tinha 1 ano. Eu e o seu dono fomos morar juntos no ano seguinte. Por cerca de 2 anos o Coronel foi nosso companheiro de todos os dias; o marido da minha cachorra Gaia e pai de seus 5 filhotes. Não havia tido a experiência, até então, de conhecer um cachorro com tais características: lembro, por exemplo, de quando ele levava um bronca e se sentava encostado na parede e com a cabeça levantada; ficava olhando de "rabo de olho" enquanto se escorava. Quando fazia algo que nos descontentava, também assim se comportava. Era tão marcante esta sua característica que, por vezes, transportávamos este comportamento também para nossas vidas, e caíamos na gargalhada em homenagem a ele.
Outro traço marcante era a sua mansidão impar. Quando acuado, não revidava. Era extremamente carinhoso e educado. Sentava-se por perto e por ali ficava serenamente acomodado. Três fatos marcantes também compõem minhas lembranças: (1) ele fora encontrado abandonado na sarjeta e amado com o cuidado que se tem por alguém que se ama; (2) ele sobreviveu a uma intoxicação por produtos químicos; (3) e sobreviveu a um ataque de cachorro que lhe custou cirurgia, repouso e sequelas. 
Enfim, a presença do Coronel confere um sentido puro e intenso a minha existência. Hoje também celebro ter o encontrado e ter vivido, junto com ele, esta manifestação chamada vida; celebro todos os momentos em que fomos testemunhas e partícipes um da vida do outro. Ao meu amigo Antonio, confiro toda a minha admiração pelo lindo gesto de amor (eutanásia) que conduziu o Coronel ao fim do sofrimento que seus rins estavam provocando, quando falharam em sua função. Uma decisão difícil, e que julgo a mais coerente.

Aos que morreram e aos que permanecem vivos, só desejo o que um dos versos de Belchior, ouvido tantas vezes também pelo próprio Coronel, nos cantou: "que a terra lhe seja leve". 
                 

Um comentário:

  1. Linda e merecida homenagem! Também tive o privilégio de conhecer o Coronel e pude observar o quanto o Coronel o amava. Revi a Gaia no período do luto...a Gaia não existe!!! rs
    M. H.

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